A Verdade por Trás dos Fatos

29nov2015---um-grupo-de-cinco-jovens-foi-morto-nas-proximidades-da-estrada-joao-paulo-em-costa-barros-suburbio-do-rio-de-janeiro-durante-a-madrugada-os-amigos-de-infancia-tinPM’s Assassinam Jovens por Confundi-los com Bandidos (notícia)

Há quase dois anos ocorreu este fato que, a meu ver, simboliza perfeitamente a realidade mascarada de guerra e outras mazelas em que vivemos no Rio de Janeiro e no Brasil. Hoje fui surpreendido pelo editorial do Jornal Extra, lançando uma matéria reconhecendo esta realidade há muito denunciada por mim: confronto entre Estado e poder paralelo não é ocorrência policial, é guerra. A simples existência do poder paralelo é, em si, motivo auto-suficiente e explicativo para guerra.

Por este motivo, reescrevi e compartilho aqui o texto que publiquei em outra página na ocasião desta notícia:

Este tipo de situação, infelizmente, se repete rotineiramente em nossas grandes cidades. Quantos casos semelhantes acontecem quase diariamente mas, por uma série de fatores, não ganham notoriedade como este?

Não há educação nem saúde e, com isso, tampouco oportunidades de carreiras para as camadas mais baixas da sociedade. Deste modo, a criminalidade aumenta. Isto é elementar: se o cidadão não consegue um trabalho para ter o que comer, naturalmente ele vai tentar conseguir o que comer roubando. Isto é o primeiro passo para uma aproximação com uma facção criminosa.

Como também não há segurança, o poder paralelo, representado pelas facções criminosas, se estabelece como autoridade máxima nos guetos e bloqueia a presença do Estado. Uma vez estabelecido, o poder paralelo finca raízes, afinal, os que o compõem, têm algum vínculo com a região. São nascidos e criados ali.

Algumas lideranças do poder paralelo são mais maleáveis e ‘benevolentes’ no lidar com a população, o que, diante de um cenário histórico de descaso e destrato por parte das autoridades para com estes  moradores, contribui para que eles tenham dificuldades em identificar quem é quem: policiais são representantes do Estado ou ‘inimigos’? Mas que Estado esses policiais representariam, se nunca houve presença do Estado nessas localidades anteriormente, a não ser pontualmente por motivos de repressão?

Os bandidos, filhos dos moradores, dos vizinhos, dos parentes… podem até levar (mais) violência aonde sempre existiu. Mas, aos olhos dessa população, os que os enfrentam, alegando que eles ‘praticam o mal’, nunca praticaram o bem ou levaram qualquer benefício para eles quando puderam.

Por questões de imagem, os políticos não admitem estado de guerra contra os déspotas e ditadores locais. Deste modo, não há enfrentamento militar, e o policiamento local, preparado para questões urbanas (como todo policiamento ao redor do globo), tem que lidar com questões militares, como é o caso do poder paralelo usurpador do território soberano do povo e do Estado.

Nas ruas da cidade, o policial tenta ser policial. Nos arredores das comunidades, porém, ele se torna um soldado.

Dentro das comunidades moram pessoas que trabalham fora da comunidade e, apesar de muitas vezes não entenderem este complexo tabuleiro de xadrez, sabem que fora das comunidades não há motivos para guerra. A realidade de fora das comunidades também é a realidade dessas pessoas, elas frequentam diversos lugares no asfalto diariamente. Isto gera, no mínimo, um estado de confusão mental.

Seja como for, até hoje, na história da humanidade, sempre que houve guerra, as pessoas sabiam onde acontecia e quando estava acontecendo. Isto implica também o período que duravam, porque guerras duram, no mínimo, algumas semanas (na melhor das hipóteses). Por isso mesmo usa-se a expressão “em tempos de guerra”, porque se sabe exatamente quando uma guerra está acontecendo e como se comportar neste período sombrio.

A população, seja da comunidade seja do asfalto, não tem consciência do estado de guerra em que os poderes se encontram. Na guerra não há piedade, e o policial (soldado) sabe disso, pois muitos de seus companheiros caíram nas mãos dos bandidos (inimigos) e eles sabem as consequências. Assim sendo, por extinto natural humano, o policial (soldado) reage tratando sem piedade seus inimigos. Na guerra é assim, não há piedade. Não pode haver piedade.

Mas, para todos os efeitos, não há guerra.

Deste modo, quando um ato de guerra, por engano atinge civis que não fazem parte da guerra, surge indignação. As pessoas não sabem ou não conseguem entender que vivem em tempos de guerra, e o Estado faz questão de dificultar adotando a postura do politicamente correto, não assumindo seus erros, não admitindo quão grave é a situação.

O policial não é um vilão, muito pelo contrário. É um coitado, manipulado pelo sistema. Um sistema que dá todas as condições para a existência do poder paralelo, mas ao mesmo tempo exige de seu braço policial o combate a este mesmo poder. Isso não tira a culpa de cada um dos envolvidos em tentar alterar a cena do crime, como aconteceu no caso da notícia que originou o texto. No entanto, temos que levar em conta que se trata de um ato de desespero de quem vive toda essa situação e sequer tem plena consciência dela.

As vítimas dos policias, neste caso, pelo menos não sentiram dor. Coitados são seus familiares, em situação mais desesperadora que a do policial. Estes são, literalmente, vítimas das vítimas. Tanto pelo lado da polícia, representante do Estado e defensora da população, como pelo lado do poder paralelo, opositor ao Estado. Policiais, população da comunidade, seus familiares, bandidos… em última análise, são todos vítimas. Vítimas do nosso Leviatã: o Estado brasileiro.

 

Forte abraço, PMA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.