E Quando Estamos Melancólicos?

1417636759903Do grego, μελαγχολια. μελας = negro, χολη = bílis. A nomeação não é por acaso, e foi Hipócrates, o ‘pai da medicina’ quem assim batizou, no século V A.C.

Hipócrates cria que, quando o baço secretava bílis negra, este era o sintoma da melancolia, e a causa era a influência do deus Saturno, que, por algum motivo, pretendia escurecer o humor daquele indivíduo.

Para o Romantismo, especialmente na era moderna, a melancolia passou a ter enorme valor, sendo considerada até mesmo uma experiência que ‘enriquece a alma’. Não à toa Victor Hugo disse uma vez que a melancolia é a ‘felicidade de estar triste’. Para os românticos, quando em estado de melancolia, emerge-se a noção de um presente faltoso, um passado que se foi e um futuro que nunca chega, e isto é idílico para eles.

Racionalmente, porém, é possível afirmar que, em estado melancólico, a pessoa tem uma grande sensação de falta, de perda. Algo esteve ali, que era bom para ela, mas já não está mais presente e não é possível recuperá-lo. Portanto, a pessoa sofre por bons momentos do passado, por algo que já não pode mais ter.

Embora a psiquiatria tente ‘patologizar’ a melancolia, é possível analisar este fenômeno por outros prismas, e até mesmo propor saídas para este estado sem que se precise pensar em uma cartela de comprimidos. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, autor da obra “Assim Falou Zaratustra”, nos ensina nesta obra como vencer estados que ele chama de ‘prisões’, como o da melancolia, e o que ele diz ser necessário para isso é somente usar a razão.

Nietzsche diz que existe um único libertador, e este é a vontade.

A vontade, no entanto, também pode ser prisioneira, e o nome das correntes que a aprisionam é ‘Foi‘. O Foi é ranger de dentes, aflição. Aprisionada, a vontade se torna espectadora de tudo o que passou, fixa seus olhos no passado. Mas ela não pode querer para trás! A vontade não pode quebrar o tempo e seu insaciável apetite, e esta é a solitária aflição da vontade.

‘Aquilo que foi’ é uma pedra que a vontade não pode mover e, assim, a vontade, a libertadora, converte-se em causadora de dor. Em tudo o que pode sofrer ela se vinga por não poder voltar para trás. Ao invés de libertar, ela aprisiona mais o indivíduo na melancolia.

Não demora e a frustração da vontade se transforma em castigo. E castigo nada mais é que vingança. Mas uma vingança mentirosa, que finge ter boa consciência. Ora, ato nenhum pode ser destruído, como poderia ser desfeito pelo castigo?! Os atos são eternos, não podem ser desfeitos. Cada castigo que tenta destruir um ato passado, nada faz se não dar nova existência e nova eternidade àquele ato.

O aprisionar-se no passado é, na verdade, entronizar o passado.

No entanto, há uma saída, uma redenção para a vontade e para a melancolia. Esta não é se não a aversão pelo tempo e pelo ‘Foi’. Sendo desatrelada de sua própria tolice, a vontade se torna mensageira da alegria. O querer-para-trás se transforma em não-querer e todo ranger de dentes se silencia.

Todo ‘Foi’ é um pedaço, um enigma, um apavorante acaso – até que a vontade criadora fala: ‘Mas assim eu quis!’. – Até que a vontade criadora fala: ‘Mas assim eu quero! Assim quererei!’.

– Nietzsche

Longe do passado, a vontade conduz o indivíduo para fora da prisão, para além da melancolia.

 

Forte abraço, PMA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.