Saber Amar

engagement-1718244-960-720_bgRecentemente alguém me disse que quando duas pessoas se envolvem, é inevitável perderem o foco. É bem verdade que a maioria de nós idealizamos viver amores e romances de contos medievais – em maior ou menor grau – e muitos de nós chegamos a experienciar isso, seja de fato verdadeiro, seja real apenas dentro de nosso universo fantasioso.

Apaixonar-se é se deixar encantar por alguém, e viver esta paixão é levar este sentimento às últimas consequências.

Por outro lado, não é preciso mais do que uma simples avaliação racional para perceber que a paixão é um sentimento egoísta. Querer o outro para si e incluí-lo nos sonhos que temos dentro de nós é uma forma narcísica e mesquinha de lidar com o outro.

Por vezes também, a paixão é utilizada como desculpa para um comportamento autofágico e infantil. Quando ‘abro mão’ de responsabilidades e compromissos para ‘viver a paixão’, na verdade estou vivendo uma vida descompromissada que no fundo me apraz, mas não me convém demostrar socialmente. Porém, agora, com a paixão a meu favor, tenho um álibi para viver como realmente quero.

É inevitável que este tipo de atitude leve a crises de identidade e, se há ausência de reflexão nestes momentos, fatalmente a culpa recairá sobre ‘o outro’, sobre ‘a paixão’ ou sobre a parte de si que não sabe lidar com a paixão. E o âmago da questão permanece inobservado. Por fim, a pessoa cai em estado de auto-censura e evita relacionar-se com outras pessoas.

É um erro refrear o próprio ímpeto de relacionar-se com outrem por receio das consequências da paixão. Para este caso, o remédio é o exato oposto: relacionar-se. Mas não sob o jugo da paixão. Relacionar-se de modo maduro e responsável, fazendo com que a paixão abra caminho para aquilo que as pessoas chamam de amor.

Não se pode condenar a paixão ou os apaixonados, mas pode-se admoestá-los para que despertem para uma atitude menos narcísica. Aquilo que as pessoas costumam chamar de amor é muito mais maduro e apropriado a todos os relacionamentos.

Embora tenha preferência pelo adjetivo ‘empatia’, a simples pronuncia da palavra A-M-O-R mexe com algo dentro de nós, desperta uma percepção diferente. A ideia de amor está ligada a completude. Por isto Aristóteles disse “O amor é formado por uma única alma habitando em dois corpos”.

Aristóteles não era um romântico. O que ele quis dizer é que, em amor, não há necessidade de ‘roubar’ o outro da própria vida dele ou unir-se simbioticamente a ele dentro da ilusão dos sonhos da paixão. Pelo contrário, já estou unido a ele pois olho para ele e o vejo. Em amor, eu olho para dentro do outro, através de seus olhos, quero saber quais são seus anseios e aflições, quero conhecer seus traumas e partilhar de suas expectativas. Meu desejo é apoia-lo, vê-lo conquistar metas e superar obstáculos. Este é meu gozo.

Um apaixonado pode machucar àquele por quem está desejante. Ele está cego, sua paixão embaça a visão e diminui a sensibilidade, ele não pensa no outro, apenas em si mesmo. Ele quer o outro para si, custe o que custar.

Alguém que, ama, por outro lado, é incapaz de ferir ou causar dor àquele que ama. Quem ama age como o altruísta, apenas quer o bem do outro, sem nem mesmo esperar nada em troca. Quando eu amo, quero estar com o outro, e se o outro não quer estar comigo, eu respeito sua vontade, por mais que seja desconfortável, às vezes até sofrível para mim.

Quando nasce o amor, ele cicatriza todas as feridas deixadas abertas pela paixão. Quem ama vê tudo mais belo, o sol mais brilhante a cada crepúsculo da manhã e a lua mais reluzente a toda noite. Aquele que ama, deseja expressar o amor que sente com a eloquência e o fogo de um poeta. Por isto disse Platão – “Ao toque do amor, todas as pessoas se tornam poetas.”

 

Forte abraço, PMA

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