O Que é o Inferno?

Rosto-InfernoPara Agostinho e os cristãos da baixa idade média, o inferno era existir aqui, nesta terra, longe de Deus e do corpo glorificado, e ainda viver de modo a, no pós vida, ser ‘condenado’ a ficar nas esferas mais distantes do círculo de mortos que envolvem o criador. Para os cristãos escolásticos e contemporâneos, o inferno é um local de existência da alma onde esta há de sofrer eternamente por ter rejeitado Cristo como único salvador. Posteriormente, esta segunda concepção ganhou traços macabros (fogo, enxofre, o Satã por excelência, etc.) por uma série de influências filosóficas e literárias, com destaque para a obra de Dante, a Divina Comédia.

No século XX, o filósofo francês Jean Paul Sartre escreveu a célebre frase “o inferno são os outros” pois cria que o homem é condenado a ser livre e, a liberdade do outro, geralmente, é tão desagradável que torna-se um inferno para mim. As escolhas (ou não escolhas) dos outros, segundo Sartre, costumam ser o que mais me perturba no mundo.

Se contemporâneos fossemos, perguntaria a Sartre, de modo bem socrático: Se o inferno são os outros e sua vida é cheia de outros – uma vez que é impossível viver como uma ilha, então sua vida é o inferno?

Ora, creio que a própria filosofia existencialista, a qual Sartre e eu somos simpatizantes, nos conduz para uma vida que valha à pena, onde sempre há escolha e cada escolha pode ser reafirmada ou refeita, conforme nossa convicção. Uma vida de ‘apostador’ como diria Deleuze. Um termo – apostador – que nada tem a ver com jogo ou jogatina. Apostador é aquele que faz apostas pois está sempre fazendo escolhas e, quem faz uma escolha, em última análise, aposta na escolha que fez. O apostador escolhe conscientemente e ‘banca’ suas escolhas, afirma-as.

Assim sendo, posso escolher não me submeter a liberdade dos outros de tal modo que isto se torne um inferno para mim. Posso escolher não olhar para os outros como inferno, por mais repugnante que os outros e sua liberdade possam ser. Se tudo o que o outro faz é criar infernos, mesmo que estes estejam próximos a mim, posso escolher não olhar para eles da forma em que se apresentam ou desejam ser percebidos por mim. Não preciso submeter minha interioridade à exterioridade do outro.

Deste modo, rejeito a definição de inferno sartreana. Mas se o inferno não é a vida dos outros, tampouco nossa vida ou a próxima, então o que é inferno a final?

Inferno é ruído, alvoroço, tumulto de modo ininterrupto. Inferno é privação de silêncio, de sossego, de quietude; inexistência de harmonia. Inferno é quando estes elementos todos, em uníssono ou não, não nos dão trégua, e o equilíbrio torna-se impossível. Inferno é ausência de paz.

A vida de um ser humano é repleta de expressões de si mesmo em seu exterior, e assim precisa ser, pois a vida é sempre para fora. Porém, não pode passar despercebido que uma dessas expressões é o silêncio. Expressar o silêncio é condição sine qua non para o equilíbrio e a harmonia do ser consigo mesmo. Sem silêncio, a balança das expressões pende demais para as ações, e então o inferno insurge.

É preciso expressar o silêncio. Combinado a outras expressões, é a fórmula do equilíbrio. A maneira de se obter paz.

Sendo o inferno barulho, cabe a cada um buscar a harmonia e a firmeza da paz, escolhendo com sabedoria e moderação suas expressões.

 

Forte abraço, PMA

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