Sobre Fé, Crenças e Apostas

5-dicas-para-usar-a-lei-da-atração-1A filosofia existencial geralmente tem seu nascimento vinculado a Søren Kierkegaard e sua obra Temor e Tremor, de 1843. Neste livro, o filósofo dinamarquês apresenta a figura do Cavaleiro da Fé, explicitada através do mito cristão de Abraão e Isaque.

Para Kierkegaard, quando Deus exige de Abraão que este sacrifique seu filho Isaque, Abraão é confrontado com uma dura matéria. Ao escolher fazer conforme o solicitado por seu deus YHWH, o patriarca de Israel dá o salto de fé, que vai para muito além de onde a razão pode chegar. O salto de fé é reafirmado por diversas vezes no conto de Abraão, o que comprova a autenticidade da escolha e lhe confere o ‘grau’ de apostador, conforme Deleuze viria a intitular um século mais tarde.

Deleuze, porém, atribui a outro pensador a alcunha de ‘fundador’ do existencialismo. Para o filósofo francês, as questões sobre a existência podem ser vistas em Pascal, no séc. XVII. Deleuze via nas famosas apostas de Pascal a sinalização para quatro tipos de existência que formam a base para a definição do modo de vida existencialista: devota, cética, mefistofélica (como o demônio Mefistófeles da lenda germânica retratado na obra de Goethe, Fausto) e apostadora.

O modo de vida devoto é se apegar em crenças pré-estabelecidas e justificar suas escolhas por elas. O homem de crenças se esconde atrás das doutrinas. Um judeu ortodoxo, por exemplo, como o sacerdote viajante da parábola do bom samaritano, que não estende sua mão ao necessitado por ser um sábado. Em verdade, ele está debaixo de um conjunto de dogmas que escolhe por ele, o que torna suas escolhas inautênticas.

O cético é oposto ao devoto e, por não ter crença alguma, tanto faz. Ele não escolhe, mas deixa a vida escolher por ele. É tão inautêntica sua atitude quanto a do devoto.

Mefistofélico é uma forma de vida maligna. Aqui se faz sempre as escolhas más. Este modo possui uma curiosidade. De fato, há uma escolha autêntica que é a primeira: a decisão de ser maligno. Entretanto, todas as escolhas conseguintes são inautênticas, uma vez que são obrigatoriamente malignas, pois devem estar sujeitas a primeira escolha.

Por fim, há o apostador. O apostador é o verdadeiro existencialista. Mas por que apostador?

Deleuze recorre a Hume para dizer que, mesmo a razão, é no fundo baseada na fé. Veja, eu posso me avalizar pela razão astrofísica para afirmar que o sol há de nascer amanhã. Além de o observar nascer diariamente desde que me entendo por gente, sua morte está prevista para daqui bilhões de anos. Entretanto, nada garante que não vá acontecer algo no universo que o impeça de nascer amanhã. Portanto, tenho fé que o sol nascerá amanhã, por maior que seja a probabilidade de isso acontecer. De igual modo, tenho fé que dirigirei meu carro até o escritório e chegarei a salvo, porque sei dirigir e conheço o caminho, e isto acontece com frequência há anos. Mas nada impede que este acontecimento seja interrompido. Neste caso, a probabilidade é menor que o nascimento do sol, mas ainda é alta. Portanto, em última análise, sempre temos fé em tudo, por mais que isto soe estranho para nós.

Assim sendo, o apostador, consciente do modus vivendi baseado na fé, entende que, em cada situação, por mais complexa e opressora que possa parecer, sempre há uma escolha. E esta escolha é o que determinará seus próximos passos. Fazer uma escolha significa crer que a escolha adotada é a certa e a rejeitada não era adequada. Crer em uma escolha é apostar. O apostador está sempre direcionando sua fé para uma escolha específica, e sempre que o faz, reafirma esta escolha.

Assim é, de modo breve e abrangente, o modo de vida do existencialista.

 

Forte abraço, PMA

Um comentário sobre “Sobre Fé, Crenças e Apostas

  1. Pingback: (Bem)Vindo à Existência – parte I | Blog do Pedro Madsen

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