Envelhecer e Morrer

Sem-Título-1-4A morte talvez seja o mais emblemático dos tabus ocidentais e, por certo, muitos hão de se esquivar deste post tão somente leiam o título.

Evitamos pensar/falar sobre a morte a todo custo, e vivemos nossas vidas como se fossemos eternos. Nos permitimos pensar na morte durante os breves momentos em que ela se impõe nossas vidas adentro, e imediatamente procuramos refúgio na explicação metafísica/religiosa mais familiar. 48h depois, fazemos questão de abstrair o acontecimento como se não tivesse ocorrido. Acontece que a única certeza para todo que nasce é a morte.

Morrer é o destino de tudo o que tem fôlego, tudo o que tem vida. As árvores morrem, mesmo as que vivem 2 mil anos. Os planetas e estrelas também morrem, mesmo que às vezes isso leve alguns milhões e/ou bilhões de anos. Até mesmo galáxias e o próprio universo possuem uma energia vital e estão destinados ao envelhecimento e morte.

Sendo a morte a única certeza para tudo o que tem vida, então ela é a condenação executada pela própria natureza. Condenação esta muito benevolente, diga-se, pois se a natureza assume o difícil papel de carrasco, ao mesmo tempo, porém, nos presenteia com uma preparação anestésica que é o envelhecimento.

No início de nossa vida, quando há coragem de viver a juventude, pode-se dizer que estamos subindo uma montanha, e deste modo não se pode ver a morte, que está no sopé do outro lado. Depois de ultrapassado o cume, no entanto, a morte é finalmente avistada, e passa a ser conhecida não mais apenas de ouvir falar.

Agora a força vital diminui, a coragem também. A morte sendo visualizada no horizonte apazígua até mesmo a inveja. A presunção juvenil é substituída pela seriedade. O jovem, que tinha breve passado e uma vida pela frente, agora vê essa situação de forma inversa.

Quando se está velho, como no quinto ato de uma tragédia, sabe-se que um fim trágico se aproxima, embora não se saiba qual ele será. O jovem tinha a vida pela frente, agora velho, tem a morte diante de si. Schopenhauer indaga, citando Eclesiastes, se a vida não seria algo melhor de se ter atrás de si do que à frente. Como sábio Qohelet dissera: “o dia da morte é melhor que o dia do nascimento” (Eclesiastes 7:2).

Na velhice, as ilusões desaparecem e o egoísmo é suplantado pelo amor às crianças. O homem velho vive mais no Eu alheio do que no próprio, que em breve deixará de existir. Este é um exemplo e uma lição que os mais jovens insistem em ignorar.

A inutilização gradual de todas as partes do organismo, até sua destruição completa, é o prenúncio da morte. A diminuição das forças, sempre crescente à medida que a idade avança, ao contrário do que o homem ocidental costuma pensar, é necessária e até mesmo benéfica. Do contrário, a morte, para a qual esse processo prepara, se tornaria difícil demais.

Segundo Schopenhauer, o maior ganho que se obtém ao se alcançar uma idade avançada é uma morte fácil, com sorte, não iniciada por nenhuma doença. O aproximar da morte é o preparar-se para ela. A bateria que diminui suas forças até esgotar-se por completo nos prepara para seu fim, ao contrário daquela que encerra abruptamente seu ciclo de vida.

Por fim, morrer é também expressão desse ser vivo que morre. Morrer é expressar-se assim como nascer ou amar. Morrer é a última barreira, o último devir se cumprindo. Morrer é viver a morte.

“A morte não me assusta, pois não ser não é um sofrimento, e, enquanto existo, a morte não existe, e, quando a morte existe, eu não existo: o que há a temer?”

– Arthur Schopenhauer

 

Forte abraço, PMA

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