São Só Palavras…

VINATADesde que o mundo é mundo pessoas golpeiam outras, não só com facas, mas também com palavras. Embora nos deixemos ferir por esses ataques verbais, um exame rigoroso deixa claro que não há sentido algum em sentir-se penalizado por esse tipo de agressão.

Veja, se estou no metrô e alguém que acabara de entrar pisa em meus pés, esta pessoa me imputou um dano. Se o pisão foi forte a ponto de quebrar algum de meus ossos, então me causou um dano colateral, pois terei de ficar alguns dias sem trabalhar e cumprir todo o protocolo ortopédico indicado a quem sofre fraturas.

Observe, no entanto, que o dano me é imposto, e eu nada posso fazer, a não ser acatá-lo. Uma das consequências do dano é a dor, e eu também não tenho como rejeitá-la. Não posso dizer “não quero” à dor. Tenha sido proposital ou não, o dano me fora forçado, e sou obrigado a aceitar.

Imaginemos agora a seguinte situação: estou no metrô e a pessoa que acabara de entrar, ao invés de pisar em meus pés, olha para eles e em seguida olha para mim e diz: “que pés horríveis você tem!”. Este não é um dano, mas sim uma ofensa. Diferente do dano, que me é imposto, a ofensa me é OFERECIDA, e por este motivo, posso rejeitar. Esta é a chave hermenêutica para enfrentar situações com pessoas de línguas afiadas.

Nós não podemos controlar o outro, não temos ingerência sobre seus pensamentos, sentimentos ou atitudes. Não podemos evitar que o outro se comporte de maneira que nos desagrade ou deixe magoado (isto nem desejável seria, pois, seria tolir a liberdade do outro e moldá-lo a meu gosto – colonizá-lo). Por outro lado, o ‘pulo do gato’ é ter total ingerência sobre os próprios sentimentos em relação ao outro. E isto se faz observando criteriosamente tudo o que é oferecido, para aceitar o agradável e rejeitar o indesejável.

Note, o outro não tem poder para determinar quem eu sou ou o que penso a meu próprio respeito, a não ser que eu mesmo delegue este poder a ele. Neste caso, estou me submetendo a um poder que criei e deliberadamente cedi ao outro para me subjugar. Estou me permitindo ser avaliado e sentenciado pelo outro. Infelizmente, é assim que a maioria das pessoas no ocidente se relaciona com o próximo. E ainda se frustram com a avaliação do outro! É tão insano que beira à loucura!

O que se sabe sobre si mesmo é conteúdo estável, e não pode ser alterado por uma ofensa. Portanto, se alguém no metrô me dirige a palavra para dizer que meus pés são feios quando eles não são, não serão aquelas palavras que os farão ser. Por outro lado, se alguém me dirige a palavra para dizer que os pés são feios e eles realmente o são, então a pessoa não disse nada além da verdade, e não há ofensa nisso.

Então eu pergunto: com o que as pessoas tanto se ofendem?

“‘Não te insulta e injuria aquele homem?’ A sua resposta foi: ‘Não, pois, o que ele diz não condiz com aquilo que sou’.”

– Sócrates

 

Forte abraço, PMA

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