Um Flerte Com a Morte

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Mais um dia se levanta e cá estou eu, ainda respirando, ainda na terra dos vivos. Às vezes a luz do fim do túnel se distancia demais. Às vezes, desejo não mais existir.

Às vezes acho que estou morrendo. Todos estamos, é verdade, mas me parece que estou a poucos metros de finalmente descansar desta chatice toda. Às vezes sinto minha consciência desvanecendo. A cada dia que passa, uma parte grande de mim é consumida. Esta morte lenta é terrível.

Me parece que esta minha caminhada, que mal se iniciou, é uma enorme perda de tempo. Sinto-me em um beco escuro e sem saída.

Não escreverei mais nada.

Crédito não terei em nada que disser.

Não serei conhecido por nada. Tudo perda de tempo. O que me leva a simples conclusão que o desfecho desta pobre vida é o nada, e por isso não precisa ser vivido.

Sequer me alimentei hoje durante o dia. Comer para que? Não vai servir de nada mesmo…

É preferível parar com tudo e ficar fazendo nada em paz, esperando o nada acontecer. Pelo menos assim, não preciso esquentar a cabeça.

Agora, eu quero muito morrer…

Seria uma pena, pois, há um conteúdo em mim que é um verdadeiro diamante bruto, pronto para ser lapidado ao longo das próximas décadas, para ser entregue mastigado e paulatinamente para o mundo.

Por outro lado, seria um grande alívio, pois poria fim ao meu sofrimento, e o mundo perderia algo que talvez não mereça como não merece um Zaratustra, como não merece um Ser e Tempo ou um O Ser e o Nada.

O mundo não merece muitos dos presentes preciosos que vem recebendo desde a Teodiceia. Não, vou mais além. Não merece presentes preciosíssimos de valor inestimável que recebe desde o código de Hamurábi, desde a matemática de Imohtep que lhe permitiu erigir a pirâmide de degraus quase cinco mil anos atrás.

O mundo não merece…

O ser humano, vazio e egoísta, não merece…

Não é à toa que muitos estão em valas. Também não é à toa que alguns voam em jatinhos privados. A maioria destes, porém, carrega um Ceifador Sinistro dentro de si, aquele cujo nome em inglês traduz com exatidão sua essência: Devil’s Reaper. Seus falsos sorrisos de Xuxa servem de maquiagem para que não se veja as almas destroçadas e as mentes mesquinhas que estão por de trás, sob o julgo do Ceifador.

Ambos, entretanto, possuem vontades que querem para trás. Ambos estão acorrentados no ranger de dentes que é ter o libertador aprisionado.

Por isto o mundo não vale à pena. Por isto o mundo não merece.

Por isto desejo deixar o mundo e levar meu legado comigo; esta seria minha vingança. Como ato último do soldado anônimo cujo nome jamais será conhecido, mas quem carrega consigo o orgulho de ter proferido o golpe derradeiro, fatal e solitário que determina a vitória de seu exército; e que exige como preço sua vida.

É como me sinto. Assim olho para o mundo. Para a maioria das pessoas. Até mesmo dos filósofos.

Oh, como gostaria de um rio heraclitiano, com águas magicamente purificadoras para banhar-me. Quem sabe a alma do antigo mestre não me libertasse deste espírito amargo?

Oh herança maldita de Parmênides e Agostinho!

Salva-me Heráclito! Salva-me Descartes! Salva-me Zaratustra!

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