Obrigado Lutero

Reforma-735x400500 anos atrás um corajoso homem desafiava a mais poderosa instituição do planeta. Ele não foi o primeiro, é verdade. Alguns antes dele tentaram frear a sede de poder da igreja romana e as atrocidades cometidas em nome de Deus, mas não obtiveram sucesso. 100 anos antes, por exemplo, houve o famoso caso de John Huss, queimado vivo, a quem atribuiu-se profecia odisseica sobre o próprio Lutero, em seus momentos finais na fogueira. Na alta idade média, especialmente em virtude do autoritarismo tomista, todos estes homens observaram inconsistências nas doutrinas e práticas da igreja do ocidente e, de alguma maneira, tentaram purificá-la, renová-la.

Martinho Lutero, diferentemente de Huss e outros, não acabou na fogueira ou tendo seus ossos removidos da cova depois de morto porque o príncipe local gostava dele (havia se tornado dos professores mais carismáticos na universidade da cidade) e o apadrinhou e protegeu. Deste modo, a igreja não pôde apagar suas ideias da história como se não tivesse existido.

Lutero descobriu que a igreja se apoderou de todo o conhecimento à respeito das tradições sobre Jesus – figura fundadora do movimento cristão – e as usava como bem entendia, sempre em benefício próprio. Estudando a bíblia latina (a Vulgata – tradução de São Jerônimo) que era inacessível até mesmo para padres, ele chegou a seguinte conclusão: basta ter fé para que sua alma seja salva, não é necessário o perdão papal. Dentre muitas outras conclusões contrárias ao que conveniente e tendenciosamente pregava a igreja, esta é a principal.

Ao se espalhar pela Europa que a igreja não detinha o poder sobre a alma das pessoas e que não tinha autoridade para vender terrenos no paraíso, houve consequente crise de autoridade e muitos conflitos políticos que culminaram em guerras. A mais relevante consequência do movimento de Lutero para a população foi a alfabetização. Antes, a igreja detinha todo o poder de acesso a livros e a bíblia principalmente, que era o grande livro paradigmático. A partir de Lutero, não mais somente a igreja podia ler e interpretar a bíblia, mas todos deviam fazer isso por si mesmos, o que conduziu os países simpáticos ao protestantismo a um movimento de alfabetização. Agora havia uma tendência à educação continental que culminou na Europa ocidental cosmopolita do século XIX.

Logicamente que isso tudo só fora possível pois o movimento de Lutero veio após Gutemberg e a ‘invenção da imprensa’, que talvez fosse melhor definida se chamada de ‘invenção da tipografia’ (embora esta invenção tenha acontecido 400 anos antes na China pelo inventor Bi Sheng, sem que o mundo ocidental o soubesse).

Em termos históricos, porém, a Reforma Protestante não é tão surpreendente. Após toda uma era de domínio absoluto da igreja, na alta idade média surge o escolasticismo e sua altivez dogmática. Os escolásticos criam ter saberes precisos e detalhados sobre as mais variadas questões relacionadas a Deus, aos anjos, ao céu e tudo que dizia respeito ao divino. Em meio a toda essa soberba de um lado, os reinos não se sustentavam economicamente de outro, e a Europa entrava no feudalismo. A população estava cada vez mais pobre, e já não existia mais sequer uma sombra de glória da antiga Roma, a não ser pela riqueza – não compartilhada – da igreja.

Em meio a toda esta calamidade surge a peste, vinda da Ásia, e dizima a população européia. Os europeus, tanto os que morriam quanto os que sobreviviam, estavam certos que se tratava do juízo final. Em épocas sombrias, períodos de desesperança geral, sempre a arte é quem se manifesta, refletindo, de algum modo, os sentimentos das pessoas. Eis que surge o Renascimento, pessoas tentando dar um pouco de cor a um mundo de morte, sombrio, onde só há o negro e tons de cinza. Este é o terreno sendo preparado para Lutero.

De igual modo, Lutero arou a terra para todos que vieram depois dele. Estivesse onde estivessem, os que vieram depois de Lutero, precisavam se posicionar de alguma maneira. A igreja Católica iniciou o movimento conhecido como Contra-Reforma, e criou campanhas de padres jesuítas em todo o mundo, até mesmo no Japão. Dentro do movimento protestante, surgiram novas lideranças tentando dar rumos diferentes à reforma, brigaram entre si, assassinaram uns aos outros, e que hoje se reconhecem como herdeiros de Lutero no campo da fé e convivem harmoniosamente.

No campo das ideias, isto é, na academia, porém, é que está o verdadeiro diamante de Lutero. Descartes foi seu sucessor neste sentido, e dali se iniciou a era da razão. Não fosse a coragem de Lutero em romper com as inconsistências da igreja, dentro de seu juízo racional, talvez ainda fôssemos escravos de certos misticismos pregados e propagados durante a idade média.

Os famosos cinco solas protestantes, inicialmente, eram apenas três: sola fide (o mais importante), sola gratia e sola scriptura. Depois um quarto foi acrescentado, solus Christus e por ultimo, algum tempo depois, Soli Deo Gloria.

Embora Lutero tivesse uma certa simpatia por Agostinho e por este motivo as igrejas protestantes são todas mais ou menos agostinianas (embora a maioria sequer saiba disto), todo pensamento conceitual sistemático é como uma faca de dois gumes: cristaliza e torna evidente por um lado, mas também aprisiona. O simples fato de reduzir algo ao campo da linguagem já é aprisionamento e diminuição do que é a algo que não o representa. Portanto, especialmente aqueles que procuram estabelecer um vínculo ‘religioso’ com Lutero, lembrem-se de que, sobretudo nas dimensões existenciais, estéticas, éticas e metafísicas, o dogma é apenas uma tentativa falha de representação daquilo que é, e trata-se de um erro olhar para a vida e o mundo através de lentes dogmáticas.

 

Forte abraço, PMA

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