Mais Que o Necessário

necessario-mudarEm certas ocasiões ao longo de nossas vidas somos confrontados com a máxima de Mogli: “somente o necessário, o extraordinário é demais”. Em especial na juventude, onde, brasileiros que somos, tendemos a sonhar alto, e nossos pais, professores ou amigos mais velhos geralmente nos aconselham a abandonar aquele sonho de ser jogador de futebol ou ter uma banda de sucesso.

A máxima de Mogli não é descartável, no entanto, não é axiomática, e serve somente dentro de um contexto. Assim como um músico primeiro aprende a depender das notas de uma escala para tocar acordes e melodias básicas e depois aprende a não mais depender desta mesma escala para tocar jazz; assim como um piloto primeiro depende do equilíbrio do carro para fazer curvas para então aprender a desequilibrar o carro propositalmente e driftar em curvas de rally, assim também é com vida. Primeiramente aprendemos a viver somente com o necessário, sob a marquise do indispensável. Porém, em algum momento é necessário dar o passo seguinte.

Uma vida inteira onde do início ao fim tudo o que ocorre é apenas necessário, é uma vida irracional, como de um animal qualquer. Teriam Leonardo Da Vinci ou Pablo Picasso nos legado suas obras de arte caso vivessem tão somente pelo necessário? E Luciano Pavarotti, Frank Sinatra e Michael Jackson, que gravaram suas vozes na história, teriam o feito se vivessem para fazer apenas o necessário? Teria Ayrton Senna comovido e parado o mundo, quando de sua acidental morte, não fosse um campeão que vivia para além do que se faz necessário a um campeão?

Ontem, no intervalo de uma palestra, quando todos saíram para o lanche, ainda sentado em meu lugar observei uma bolsa feminina logo à frente. Uma bolsa cuja alça não era simplesmente costurada na lateral. Da lateral saía uma pequena alça que se amarrava a um arco dourado e, este, por sua vez, amarrava outro pedaço de couro que, este sim, servia como alça. Foi então que pensei: mais que o necessário!

Para que viver a banalidade do necessário se posso me desafiar a ir além? Assim como fez o designer em sua arte ao elaborar a alça detalhada, assim como fazem tantos outros profissionais em suas áreas de saber, de igual modo é a vida do filósofo, e assim também deve ser nossa vida cotidiana.

Nossos pensamentos devem ser guiados para além do necessário. Esta é a essência da filosofia, a essência do pensar, da reflexão. Geralmente nossos pensamentos são “congelados”, ideias fixas que não são examinadas em sua raiz. Se tenho uma crença, apenas creio nela e procuro ler/ouvir pessoas que a confirmem, e me afasto dos que a contestam. É assim na política, na religião, na medicina e em qualquer outra área da vida.

Pensar é o necessário, pensar o pensamento é mais que o necessário. Por que eu penso isso? Por que penso desta maneira? Por que creio firmemente em determinado sistema de crenças (seja político, religioso, etc)? Este é o desafio cotidiano do filósofo que, como ensinara Platão, é nosso dever levar a todo o mundo e todo mundo.

Não nos contentemos com o necessário. Para além do necessário é onde estão nossas virtudes e, um mundo virtuoso, certamente é mais agradável de se viver.

 

Forte abraço, PMA

2 comentários sobre “Mais Que o Necessário

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