Jogos Brasileiros X Jogos Europeus

428538_med_chelsea_x_arsenal_premier_league_2017_2018_campeonato_nbsp_jornada_5.jpgNos últimos anos o que mais se ouve de torcedores, dirigentes, jornalistas e até mesmo treinadores e jogadores é a triste frase “ah, mas na Europa…”. Seja em que contexto for, sempre para justificar que “lá” o futebol praticado é de alto nível e aqui no máximo intermediário. Hoje o sonho das crianças não é mais jogar no Flamengo ou no Grêmio, mas jogar na Europa. Os cadernos escolares nas papelarias que antes eram do Vasco, do Atlético-MG e do Corinthians hoje são do Barcelona. Os bebês que eram vestidos pelos pais com os uniformes do Fluminense, do Palmeiras, do São Paulo ou do Cruzeiro, hoje são vestidos de Chelsea e Real Madrid. Mas será verdade mesmo que o verdadeiro futebol encontra-se lá e somente lá?

Me propus a acompanhar as principais partidas das ligas europeias desde meados de 2017 para verificar se o futebol europeu é mesmo “de outro nível” como falam. Depois de alguns meses observando, cheguei a uma conclusão e tomo o jogo de hoje – Arsenal x Chelsea – como arquétipo e paradigma para ilustrar a situação.

Independentemente de ser um clássico, foi um típico jogo do campeonato inglês, o tipo de jogo que todos chamam de “jogão” nos grupos de whatsapp. Jogo corrido e intenso do início ao fim.

Mas veja, no derby inglês, não há qualidade técnica de sobra, nada que não esteja disponível em dose semelhante no derby paulista, por exemplo. Özil não apresentou nada que Jadson, por exemplo, não apresentaria. No clássico inglês aconteceram erros de lançamento, de passes curtos, de domínio de bola, de escanteio, de finalização… enfim, todo tipo de erro comum que acontece aqui. Teve até um goleiro fazendo cera no final e levando amarelo por isso. Mas aqui vaiam e chamam de patético, lá sequer reparam e chamam tudo de espetáculo. Por quê isso acontece?

O futebol inglês não é melhor que o brasileiro. Nunca foi, e continua não sendo. Bem como italiano, o francês, o alemão ou o espanhol – apesar que na Espanha existem duas seleções mundiais que jogam contra o resto dos times de futebol do mundo. Não à toa nós é que temos 5 copas. Mas então, por quê o que acontece lá é chamado de espetáculo e nossos jogos e torneios são menosprezados por nós mesmos? Tenho alguns palpites:

O brasileiro tem uma síndrome: complexo de vira-latas. Isso se traduz no ditado “tudo que vem de fora é melhor” e isso transcende o futebol. O simples fato de ser europeu já nos faz naturalmente ser mais simpáticos, seja futebol, seja bebida ou o que for. É de fora, isso que importa. Sendo de fora, só pode ser melhor.

Desde que a UEFA percebeu que futebol é business – e isso foi no início dos anos 90, começaram a vender a imagem dos clubes e das ligas europeias mundo a fora. E nós, vira-latas que somos, compramos de bom grado. Tínhamos um produto melhor, mas preferimos trocar por algo de qualidade inferior apenas porque era “de fora”. Nosso Brasileirão que tinha Palmeiras de Edmundo e Evair, Corinthians de Viola, Grêmio de Paulo Nunes, Botafogo de Túlio, Fluminense de Renato Gaúcho, etc. era infinitamente melhor tecnicamente que qualquer liga italiana ou inglesa da época.

Um segundo fator que influencia o modo como olhamos para os jogos – e este tem reflexos diretos no campo – é a mentalidade das torcidas. Lá há uma certa cultura de “prestigiar” o espetáculo, independentemente do sentimento de rivalidade e clubismo. Isso reverbera no modo de torcer. Qualquer torcedor brasileiro que assiste a dois jogos de ligas europeias estranha (ou deveria) de imediato a postura da torcida: eles não pressionam os jogadores do próprio time no primeiro passe errado. Me arrisco a dizer que este é o motivo dos torcedores playstation sequer repararem que há erros nesses jogos.

Da parte do jogador, quando não há pressão – especialmente no momento do erro – isso gera confiança. Consequentemente ele tenta jogadas ousadas, como pedalar na entrada da área, como o ponta esquerda do Arsenal fez algumas vezes hoje. Nada diferente do que o Dudu do Palmeiras não saiba/possa fazer. Mas se o Dudu tentar e errar, o som da arquibancada vai mudar bastante, e a situação dele no clube pode ficar delicada por causa de um único drible mal sucedido. Por isso ele não tenta. Se estivesse na Inglaterra ou em outro lugar, aposto que faria várias vezes.

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Por fim, neste século criou-se uma cultura de simulação nos jogos brasileiros que nunca fez parte da nossa história – até os anos 90. Se os erros que acontecem lá são os mesmos que aqui, se até as reclamações acontecem lá como aqui, por outro lado, lá não se para o jogo a toda hora como aqui. E este é o principal fator que, dentro de campo, diferencia o futebol brasileiro do inglês ou qualquer outro.

Se há um pênalti duvidoso em um clássico como o de hoje, os jogadores reclamam com o juiz, mas não paralisam o jogo por 5 minutos por este motivo. Se um jogador recebe uma falta, por forte que seja e seu time esteja ganhando, não fica rolando no chão fingindo estar severamente ferido por este motivo. Ele até reclama com o juiz ou com o adversário, mas se levanta e deixa o jogo seguir. Portanto, há uma dinâmica, em especial no futebol inglês, que inexiste no brasileiro. O que torna o jogo interessante e disputado até o final lá, é justamente o que faz do jogo aqui por vezes monótono e banal.

Entretanto, há que se pensar o quanto isso não se trata de o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Afinal, para os pressionados jogadores brasileiros, quanto mais bola rolando, mais chance de pegar nela e errar, e ser vaiado, etc. Com a bola parada isso não acontece.

 

Forte abraço, PMA

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