O Pecado de Tite

40Longe de mim cornetar o Tite, sua seleção, seu esquema tático, suas preferências por jogadores “X” em detrimento de jogadores “Y”. O que ele fez pela então enlutada seleção dos 7×1 foi fantástico e inimaginável ao mais otimista dos torcedores.

A camisa mais pesada do futebol mundial deixou de ser temida pelos seus próprios jogadores e voltou a ser pelo resto do mundo, como sempre foi – e sempre será. O carimbo dos 7×1 e o medo de ser a geração que apequenou o Brasil, de carregar a chancela de ter conduzido a seleção de Pelé, Tostão, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Gérson, Rivelino, Zico, Falcão, Cerezo, Sócrates, Careca, Nelinho, Romário, Ronaldo e tantos outros craques inesquecíveis a um degrau mais baixo, aos poucos desapareceu. Em seu lugar emergiu a sensação de bem representá-los. Hoje existe a certeza de que se a sorte não permitir se juntarem a este seleto time de craques que tiveram o privilégio de vestir a amarelinha e tornarem-se imortais, fizeram jus ao posto e honraram o manto. Tudo graças ao Tite.

Entretanto, há um outro aspecto da convocação que não concerne diretamente aos jogadores, e neste Tite acaba de dar uma grande mancada. Uma convocação exerce naturalmente repercussão sobre a torcida do clube em que o jogador atua, e nos clubes de gestão moderna, o marketing usa isto a seu favor e reverte o fato em algo altamente atrativo para o clube, e indiretamente também para seus rivais. Todos ganham no futebol local dos arredores do clube que teve jogador(es) convocado(s).

Agora veja, desde sempre o futebol europeu foi mais rico que o nosso e procurou comprar nossos craques para melhorar seu nível técnico. Basta lembrar de Maradona e Careca atuando juntos no Napoli. Naquela época, porém, o futebol dispunha de mais craques, mais clubes competitivos e a disparidade econômica entre América do Sul e Europa não era abissal como é hoje. Neste novo século o mercado mudou, a gestão esportiva mudou e nós ficamos um pouco para trás. O peso das camisas ainda é o mesmo (vide final do Mundial Interclubes 2017) mas para por aí. Nosso futebol outrora recheado de craques acostumou-se a exportá-los para o outro lado do Atlântico e torcer por eles pela TV.

Nosso jogo também piorou. Hoje jogamos o jogo retrancado dos europeus enquanto eles jogam o nosso futebol ousado e ofensivo. Se a seleção de 70 tinha 4 atacantes e 5 camisas 10, ou a de 82 é a de futebol mais vistoso da história, se isto era reflexo natural dos nossos times como o Santos de Pelé, o Cruzeiro de Tostão, o Botafogo de Garrincha, a Máquina Tricolor, o Expressinho da Vitória vascaíno e muitos e muitos outros, hoje quem faz isso é o Real Madri o Barcelona e o Manchester City.

Mas eis que surge no Brasil um tradicional e vencedor clube apresentando um futebol moderno e vistoso, lembrando seus momentos áureos do passado recheado de craques. E surge um novo grande jogador: Luan.

Luan não se esconde nos momentos de decisão e chama a responsabilidade para si. Conduziu seu time à conquista mais importante do continente e foi eleito melhor jogador da América.

Ora, enquanto meio-campistas, Fred e Luan têm características parecidas. Enquanto atletas, Fred joga num clube de médio porte na Europa e não representa muita coisa para o torcedor brasileiro, enquanto Luan joga num clube campeão do mundo e dono de uma das camisas mais pesadas que existe.

Sem nem entrar no mérito de que Luan, por atuar onde atua, é naturalmente mais decisivo que Fred, esta questão é de suma importância para o futebol deste país. Não é a questão de o Tite preferir o Fred ao Luan. A questão é que não convocar para uma Copa do Mundo o melhor jogador da América que joga no melhor time da América no momento e levar um jogador semelhante que atua em um time qualquer da Europa é um recado claro aos jogadores brasileiros:

“não valorizamos o futebol jogado no Brasil, joguem na Europa”

Isto não é feito intencionalmente, mas ainda assim está sendo feito. E este é o pecado de Tite.

 

Forte abraço, PMA

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