Amadurecer & Amar

amor4Recentemente alguém disse após assistir uma apresentação minha: “você tem muito conteúdo”. Me calei.

Posso ter mais conteúdo filosófico, histórico ou teológico que a maioria dos que me assistiram, mas àquela altura, meus pensamentos navegavam por outras águas. Águas estas tão familiares quanto misteriosas, onde não creio ser digno de elogios devido a sucessivos fracassos em tentativas passadas de navegar por elas. Me refiro às águas do amor.

Homens imaturos geralmente se apaixonam por uma Frineia, a famosa cortesã amante de Praxíteles, o escultor ateniense. Praxíteles é o responsável pela estátua de mármore de Afrodite nua, maior símbolo de beleza do mundo antigo. A tradição nos lega que a inspiração para a estátua fora sua amada Frineia.

A beleza, a formosura, o encanto de uma deusa. Eu já tive a minha, e muitos puderam ler a respeito. Minha Frineia tinha todas as virtudes encerradas no cinto de Afrodite: o sorriso sedutor, o falar doce, o suspiro persuasivo, o silêncio expressivo e a eloquência do olhar. Era incomparável como Afrodite, as demais mulheres não chegavam aos seus pés. Na verdade, Frineia e Afrodite eram indistinguíveis.

No entanto, Afrodite não é só encanto. É uma deusa por vezes cruel e vingativa, capaz até mesmo de perseguir e castigar aqueles que a amaram. De igual modo acontece com os homens que se apaixonam por Frineia. Não enxergam mais nada além das virtudes da amada, caem em um poço de trevas e sequer se dão conta. Quando se dão, já estão por demais afundados. Ainda assim, alguns movem-se adiante e abandonam o velho amor, mobilizam-se para o seguinte, mais maduro.

É um amor cuja inspiração vem do grande pintor grego Zêuxis, que diante da encomenda dos cidadãos de Crotona de que pintasse um quadro de Helena de Tróia – cuja beleza seria comparável à de Frineia, surpreendeu a todos com sua exigência. Zêuxis pediu aos crotonenses que lhe trouxessem as mais belas jovens da cidade, alegando que esta era a única maneira que seria possível captar a imagem viva da beleza e transferi-la para o quadro.

Zêuxis estava convencido de que não poderia encontrar todas as partes que compõem a beleza perfeita em uma só pessoa, pois cria que a natureza jamais fizera uma só coisa que detivesse a perfeição em tudo. Ele ensinou àquelas pessoas que não há beleza ideal, tampouco amor ideal, apenas o particular. Zêuxis ensinou que a minha beleza somada a beleza de quem amo gera completude e juntas podem ser realçadas.

Buscar a completude, o aperfeiçoamento. Reconhecer qualidades que não tenho e admiro, e vejo no outro. Viver isto em reciprocidade. Esta é uma forma madura de amar.

 

Forte abraço, PMA

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