Für Bettris

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Vivo, desde então, ao som de Moonlight Sonata Opus 27 n°2 todas as noites.

Sonho com o raro e efêmero abraço de sobre os bagunçados lençóis. Ainda sinto seu cheiro; não esqueço o quão suave é sua pele. Ainda guardo o afago que é tocar seu corpo.

Vivo, desde então, a recordar seu doce sorriso, seus lábios desenhados como que fios vermelhos tecidos do mais raro linho egípcio.

Desejo entregar-me a ela. Por que se vai antes de ter partido?

Vivo, desde então, sentindo seus sedosos cabelos tocarem em meu rosto a cada vez que deito sob o edredom.

Quem é esta cujo amor é capaz de encantar o desalmado? Quem é esta, capaz de devolver a vida a Bartleby?

Vivo, desde então, olhando dentro de seus lindos olhos, a cada vez que fecho os meus.

Quem é, ó Nix? Deusa primordial da profunda noite, conhecedora de todos os segredos noturnos e magias, foste tu quem a enviara para desfazer o feitiço que descoloria-me e destonava-me?

Vivo, desde então, beijando-a a cada vez que esbarro com os lábios no travesseiro.

Eu, cujo coração já fora ferido por espinhos, esmagado pelo compressor, traído pela inocência dos amantes; mesmo eu, cujo devir apaixonado abandonei, repentinamente me fascino. Esta é Eurídice, a mais bela entre as belas, àquela quem Nix me enviara.

Não vivo, desde então, pois viver é ter esperanças de que um dia me pertença; e eu a ela.

Ó Nix, diga-me o que fazer! Ó Nix, reconduza-a a mim!

Destinado estou a somente um soirée com aquela que resgatara minh’alma? Benção ou maldição? Só mais um jogo dos deuses?

Não precisei da flecha de Eros, redescobri de imediato o amor. Seria justo que o perdesse sem mesmo tê-lo conquistado?

Mas eu, dos tolos sou o maior! Não aprendi a manejar a deslumbrante lira de Orfeu. Não sei tocar a melodia que, fabulosa, fará ela retornar.

Vivo, desde então, arrependido, sem mesmo saber o porquê.

Tu Nix, que és respeitada e temida até mesmo pelo poderoso Zeus, recordaste de avisar a ela que sua simples presença me faria ferver o coração pelo calor efervescente do sangue?

Vivo, desde então, vislumbrando o reencontro.

Saberia ela de seu poder sobre meu ser? Saberia ela de meu tridimensional desejo de tê-la ao meu lado?

Vivo, desde então, como Alfeu.

Ó Nix, encante-a por mim tal qual me encantaste por ela!

Não vivo, desde então. Carregando-a no espaço mais nobre que meu coração jamais reservou a alguém, não-vivo, levando-a comigo onde vou.

Viverei com ela até meu último suspiro.

 

Pedro Madsen Andrade

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