Muito Mais que a Taça

IMG-20181227-WA0031Alguns clubes são marcadamente grandes por suas conquistas. Outros pelo drama de sua trajetória e alguns por sua superstição. Há ainda os clubes que têm uma mistura desses e outros elementos, e assim compõem a identidade que marca sua grandeza. Não é possível compará-los pois grandeza não se mede. Apenas podemos tentar descrever para os que não conhecem. O Rica Perrone (quem muito admiro) fez isso recentemente.

Ele escreveu que o momento mais marcante de sua vida foi a defesa do goleiro Zetti na disputa por pênaltis que consagrou o São Paulo campeão da Libertadores pela primeira vez em 1992. Certamente o São Paulo é um clube marcado por suas conquistas, e é natural o elo entre torcedor e time se dar como na experiência do Rica.

Como torcedor do futebol carioca, conheço bem os 4 clubes que levam a alcunha de grande, mas meu coração sempre bateu forte mesmo com as cores rubro-negras.

É quase inexplicável o elo entre o flamenguista e o Flamengo. Talvez por isso mesmo seja tão celebrado e odiado. Ser Flamengo não é comemorar títulos e taças, definitivamente.

Quase não me lembro do campeão carioca invicto de 1996, mesmo estando lá. Um título muito esperado, diga-se, após o trauma do gol de barriga no ano anterior. Talvez a volta Olímpica e as saudosas arquibancadas de concreto sejam as únicas lembranças. Nada marcadamente Flamengo aconteceu. O simples fato de ser campeão invicto já não soa muito Flamengo. Este título conta mais para as estatísticas do que qualquer outra coisa.

Já no ano seguinte, na final da Copa do Brasil de 1997, mesmo saindo do estádio chateado pela perda do título, saí contente por ter vivido o momento mais apaixonante da minha história. Após o 0 x 0 no jogo de ida e a quase lambança do saudoso goleiro Zé Carlos (ameaçou pegar com as mãos uma bola recuada dentro da área), não sabíamos exatamente o que esperar. Aliás, nós flamenguistas nunca sabemos.

Não há expectativa real para o rubro-negro até os dias que antecedem o jogo. Tudo que é dito sobre a torcida pela grande mídia é balela. A torcida do Flamengo mesmo começa a criar o clima pro jogo 2 ou 3 dias antes da partida. A partir do que sentimos nesse período, aí sim, sabemos o que esperar para a partida. Não é racional. É uma espiritualidade rubro-negra que só se manifesta entre os que estão abertos para ela.

A expectativa que se cria nos dias que antecedem a partida geralmente se concretiza no entorno do Maracanã, horas antes do jogo, quando você encontra os mais céticos que disseram que não iriam mas sempre acabam indo de última hora, mais o pessoal da academia, da pelada, do trabalho, da igreja, etc. Todos estranhamente compartilhando o mesmo sentimento dos últimos dias apesar de não terem se falado.

Este sentimento quase nunca tem muito a ver com o jogo em si, mas principalmente com o fato de que precisamos nos fazer presente, afinal, não existe o Flamengo sem a torcida do Flamengo. Seria como um carro sem rodas, uma colmeia sem abelhas.

O Flamengo definitivamente não é o time que você vê em campo. Pensar assim é acreditar que uma parte do corpo humano, como os braços ou pulmões, são todo o corpo humano e não parte dele.

Por isso as enormes filas para compra de ingresso, indispensáveis! Nos dão a sensação de sermos mais queridos por nós mesmos. Também não existe Flamengo sem fila pra ingresso na porta do Maracanã. Mas não é fila, é muvuca. Nessa hora não somos empresários, faxineiros, diretores ou garçons, somos todos Flamengo, uma multidão sem cara que, quanto mais sente o próprio calor, mais deseja sentir.

O Grêmio saiu na frente no placar, mas isso pra’gente não importa. Não é sequer óbvio que o Flamengo vá virar, é uma certeza inconsciente de algo tão natural como andar pra frente. Que se dane se é o Grêmio, o Real Madri, o Goiás ou a Ponte Preta. São apenas coadjuvantes da festa Flamengo no Maracanã.

Empatamos o jogo. Mais algum tempo e a virada veio. Mas não foi uma virada qualquer, foi uma virada com requintes de flamenguice. Numa jogada dramática que não poderia ser em outro momento senão na primeira metade do segundo tempo, Romário cabeceia entre dois gigantes zagueiros adversários e a bola bate na trave. Mas volta na direção dele.

Quando o baixinho mergulhou e deu o antológico peixinho, o Maracanã explodiu antes mesmo de a bola entrar. Não é possível descrever esta emoção. Até porque não é todo gol nem qualquer craque que faz o Maracanã explodir. Você grita de emoção o mais alto que pode, mas é tanta gente gritando ao seu redor que você literalmente não ouve seu próprio berro! Você se sente mudo, apesar de sentir as cordas vocais vibrarem ao emitir som. Aterrorizantemente apaixonante! Só podem ser os anjos do futebol-Flamengo retribuindo a folha de arruda que o velho geraldino levou e multiplicando nossas vozes.

Eu estava de frente para a cena, o Romário pulou na minha frente! Meu ângulo de visão privilegiado foi muito mais lindo do que a imagem da TV registrou. Quisera eu ter um gravador nos olhos para compartilhar minha memória no youtube.

Não importa se o Grêmio empatou o jogo, levantou a taça e me fez sair menos alegre do estádio naquela noite. Aquele momento, o Romário mergulhando na minha frente, o gol do título… eu fui campeão do Brasil, mesmo que somente até o gol do Carlos Miguel que re-empatou a partida. Mesmo tendo durado apenas alguns minutos, foi um momento originalmente Flamengo. Porque ser Flamengo transcende as conquistas.

Ser Flamengo só acontece quando a emoção das arquibancadas é perfeitamente sincronizada com o que acontece no campo, e vice-versa. Isto não é programado nem ensaiado, simplesmente acontece. Ás vezes não acontece. Mas quando acontece, você é o Flamengo e o Flamengo é você. Dane-se o resto do mundo. Dane-se também se você que não é Flamengo não entende. Para nós, com ou sem título, é a mais sublime alegria do universo. É o Maracanã lotado, é sua voz que você não ouve, é a virada épica. É o título que foi seu por alguns minutos, é o gol do craque. É o gol do Flamengo.

 

Forte abraço, PMA

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