(Bem)Vindo à Existência – parte I

existencialismo-1-1021x580Estudantes de psicologia costumam ter certa dificuldade ao lidar com a “3ª força”, como é chamada a psicologia existencial-humanista. Não raro interpelam professores, alunos de filosofia ou mesmo estudantes de psicologia que parecem mais avançados, em busca de melhor compreensão do assunto. Isto se deve à falta de familiaridade com o método de introdução por introjeção (especialmente predominante em toda esta seara após as contribuições de Heidegger). Por este motivo, trago um pequeno resumo que pode servir também de tutorial aos que queiram se aprofundar no estudo deste campo e/ou destes pensadores.

 

A psicologia existencial-humanista recebe este nome devido à junção de dois movimentos fortes do séc. XX: o existencialismo e o humanismo. Embora haja semelhança entre eles, sua origem e âmago são diferentes. Por este motivo é preciso antes entendê-los separados e individualmente para então compreender como funciona sua junção.

O existencialismo é um movimento filosófico que surge após a 1ª Guerra Mundial. As investigações que até então giravam em torno da pergunta “o que é o homem?” transferiram seu cerne para “quem é o homem?”. Saber quem é o homem pode ser de grande interesse para a psicologia, daí um elo natural entre psicologia e filosofia.

Os principais filósofos da existência são Jean Paul Sartre, Martin Heidegger, Hannah Arendt, Karl Jaspers, Albert Camus, Gabriel Marcel e Hans Jonas. Todos estes na esteira do existencialismo pós-guerra. Porém, há um outro filósofo anterior a este tempo que parece ter antecipado o movimento em quase um século. Søren Kierkegaard, um filósofo dinamarquês falecido cerca de 70 anos antes do início da 1ª guerra é considerado o pai do existencialismo por uma gama considerável de pensadores. Particularmente, penso que seria mais lógico que obtivesse a alcunha de “avô” do existencialismo, afinal, sua obra só fora “descoberta” pelos existencialistas ao longo do séc. XX, tendo assim exercido influência sobre os mesmos somente após seu surgimento.

Kierkegaard trabalha temas como desespero, angústia, medo e ansiedade, observando estes fenômenos por uma ótica até então inédita. Uma de suas principais contribuições é sobre a existência autêntica. Ele elabora este tema na obra “Temor e Tremor”.  Veja aqui um estudo mais elaborado. Outras de suas obras como “O Desespero Humano” trazem um olhar para o homem que a maior parte dos especialistas concorda se tratar do primeiro olhar existencial para o ser humano.

Voltando ao pós-guerra, Sartre é o filósofo que leva à radicalidade o pensamento de Nietzsche. Para Sartre, a “existência precede a essência”, uma vez que não há mais essências pré-determinadas. E para compreender isto precisamos voltar a Nietzsche.

Friedrich Nietzsche situa-se entre Kierkegaard e Sartre, morto em 1900. Nietzsche observou que desde sempre o homem é, aqui neste plano de existência, algo assim como uma sombra ou um reflexo parco do que ele realmente é. O que o homem realmente é sempre esteve determinado no mundo das idéias, conforme especulado por Platão.

Ao longo da história, o mundo das idéias assumiu diversas formas, a qual o céu cristão – cuja nossa alma (ou nossa ideia) faz parte, é a mais familiar para nós.

Porém, o determinante é perceber que esta separação entre o mundo das idéias (mundo suprassensível) e mundo real (mundo sensível) se tornou tão consolidada devido a elaborações teóricas e dogmáticas ao longo dos milênios que é difícil para o homem conceber sua existência como que não nestes moldes.

Uma vez percebendo isto, Nietzsche atenta para o mal que este modo de perceber a própria existência faz. O homem acaba que por depositar suas forças no porvir e sempre deixa escapar o presente. Uma vez que meu verdadeiro lugar não aqui mas no céu, ou numa encarnação futura, ou num plano espiritual elevado, vivo em função do que pode me ser frutífero para uma vida futura no céu, ou na próxima reencarnação, mas nunca vivo radicalmente minha presença onde de fato estou.

Nietzsche então decreta o fim do mundo suprassensível, e esta é a famosa sentença nietzschiana da morte de Deus, que pode ser encontrada em “A Gaia Ciência”. Ele percebe, porém, que devido a sedimentação do modelo de existência pautado em dois mundos, o fim do mundo suprassensível se torna insuportável para o homem, uma “condenação” ao mundo sensível. Ora, viver em função de outro mundo trás sempre uma vindicação, uma redenção futura, um algo assim que há de compensar o que aqui falta. Portanto, o fim do mundo suprassensível é o fim da redenção, e assim, num primeiro momento, não é senão uma condenação a este mundo, onde tudo é incompletude e ausência. O pior dos castigos.

A partir deste ponto, então, é preciso que Nietzsche enfatize que o fim do mundo suprassensível é, na verdade, libertação. Ele oferece uma nova forma de enxergar a própria existência e nela o ser humano não é ruim, ou pecador, ou lhe falta algo que somente alcançará mediante longa busca flagelante. O homem é pleno em si, nada lhe falta. Ele não precisa alcançar nada para ser melhor pois ele já é melhor, não precisa encontrar algo que o preencha pois já é preenchido. É preenchido por si mesmo, afinal o si dele é pleno.

Ser humano passa a significar viver como se é, onde se está, ser repleto de possibilidades. Tão simples quanto libertador – embora difícil de aceitar para muitos. Quem sempre se pensou incompleto tem dificuldades em notar que, o que sempre julgou imperfeito é, na verdade, integralidade. Estar imerso numa vida pautada por dois mundos estando no mundo imperfeito onde se precisa buscar algo que está no outro que é o perfeito, e ainda nunca alcançar nesta vida o que se busca, atrapalha a percepção da morte de Deus. É como dizer “como pode estar morto se eu o busco todo dia?”

Daí a ênfase de Nietzsche nos aspectos libertadores da morte de Deus. Particularmente, dos principais conceitos abordados por Nietzsche nos interessa o übermensch (além-homem). O übermensch pode ser entendido através da pergunta “por que há a necessidade de se ser um übermensch?”. Ora, o homem é aquele cuja vida estava pautada pelo mundo suprassensível, cuja existência seguia pré-determinações da essência. Uma vez que a essência se extinguiu, o homem não consegue sustentar a própria existência. Para sustentá-la, é preciso se tornar um übermensch, um além-homem. O Além-homem é aquele que, diante da morte de Deus, assume o controle de si mesmo e da própria existência, rejeita o mundo suprassensível e vive a plenitude de seu ser. Este é o tema central da obra “Assim Falou Zaratustra”.

A partir disto, Sartre conduz a ausência do mundo suprassensível ao extremo e trás noções de como, por não haver essência pré-determinada, pode-se então assumir qualquer essência dentro da existência, isto é, definir e escolher o que se quer ser. Isto trás um caráter de liberdade nunca antes pensado, daí a sentença “condenados a ser livres”.

A leitura da obra de Heidegger foi de grande influência para Sartre e deste ponto continuaremos a série no próximo post.

 

Forte abraço, PMA

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